por Adriane Garcia, Sérgio Fantini e Tadeu Sarmento__
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Steve Cutts |
Josiel não é dos auditores mais espertos, nem mesmo dos medianamente inteligentes ele se aproxima. Mas Josiel é um homem de sorte, desde a infância. Inábil como ele só, ganhava todas as disputas de que participava com os coleguinhas. Na adolescência, volta e meia se via a sós com a garota mais bonita do baile. Na juventude, esteve desempregado, mas nunca sem dinheiro, graças à herança de um tio que grafou erradamente o nome do próprio filho (Jasiel) cujo sobrenome coincidia com o dele. Como se tornou auditor? Passou no concurso público com provas de múltipla escolha: fechou todas as questões, cem por cento de aprovação. Entrou como a grande promessa da seção, todos apostavam que em um ano seria o chefe.
E foi. Não bastasse ser sorteado em todas
as festas de final de ano, quando levou até mesmo aquela TV de 75 polegadas
apreendida de contrabando, teve o nome escolhido pelo chefe para fazer a
auditoria mais importante daqueles tempos: a da dívida pública brasileira.
Pairavam suspeitas irresponsáveis de que o país havia pagado tal dívida umas
cinco vezes e que o crédito já era, se existisse, prescrito. Coisas do marxismo
cultural. Josiel, então às voltas com arquivos e mais arquivos, dossiês
gigantescos, resolveu apostar mais uma vez na sorte, que nunca lhe abandonava e
escolher, a esmo, as páginas para sua conferência. Um dos credores, o maior
banco privado do país, preocupado com a famosa eficiência de Josiel, quis
assegurar que tudo sairia muito correto e enviou dois assistentes, homens de
confiança e tino, para auxiliá-lo.
Segundo Josiel, só o fato de o banco ter
enviado ajuda já contava pontos positivos na auditoria. Ainda assim, decidiu
não amolecer e trabalhou com afinco, por dias e noites inteiras, disposto a
encontrar o menor erro que fosse: de um empréstimo para pagar juros da própria
dívida a qualquer outro tipo de rolagem ilícita. Durante os jantares diários
oferecidos pelos dois assistentes do banco, acabou reconhecendo, entre um gole
de Romanée-Conti e um trago num cubano autêntico, que a dívida pública estava
correta; logo, que era justo que se continuasse cobrando do Brasil juros
exorbitantes, que abocanhavam, todo ano, mais da metade do que se arrecadava de
impostos no país. Foi o que concluiu Josiel no último jantar, depois de pedir
para o garçom embrulhar os restos de comida para dar ao mendigo que, lá fora,
implorava por um pedaço de pão.
O banco resolveu comemorar o justo
resultado da auditoria lançando uma coletânea de contos felizes para um país
feliz e iluminado — era mais ou menos o que dizia o edital, utopias para um
mundo do bem. Josiel, obviamente, foi convidado para a festa. O próprio projeto
era fraterno, os escritores doavam os textos em troca da divulgação do seu
trabalho. O importante era alentar o coração dos correntistas. Na sala da
diretoria, brindava-se por mais esse produto cultural, enquanto no saguão
atores faziam a leitura dramática dos textos, diretores do banco, emocionados,
choravam. É o poder da literatura. Um deles, poderoso do mais alto escalão, tão
comovido e sabendo que continuava credor do eterno endividamento do estado,
começou até a pensar na transferência dos 25 bilhões de impostos devidos pelo
banco — e perdoados — aos cofres públicos.
— Vejam, senhores: quanto menos futuros
potenciais pudermos imaginar, mais pobre e fechado de possibilidades será o
presente.
Um gerente de agência, que estava ali
entre os maiorais só por ser afilhado de crisma da esposa de um deles,
concordou:
— Um esforço de imaginação é necessário
para destravar tudo de que a vida é capaz.
— Isso mesmo! Pensar o mundo e criar
narrativas a respeito de futuros possíveis...
— ... comunicar outras formas de viver,
outras maneiras de organizar a sociedade.
— Um ponto de chegada, hoje inexistente, a
que podemos visar. Dessa forma, vamos parar de imaginar distopias.
— A ideia, pelo contrário, é iluminar
caminhos!
Aqueles homens engravatados e gordos e
rosados e satisfeitos se irmanavam traçando tão altas filosofias para
engrandecer a pátria.
Josiel observava toda a cena.
Interiormente, sorria: era mesmo um homem de sorte. Toda história em que
entrava tinha um final feliz.