por Germana Accioly__
![]() |
Retratos e Relatos, Panmela Castro |
Sabe
aquela sensação de estar deixando o caixa do supermercado, com várias sacolas
nas mãos e lembrar, num rompante, que esqueceu de comprar café?
Você
interrompe a caminhada por um segundo e só não leva a mão à testa num gesto
mecânico porque está segurando as compras.
- Agora
já era.
Hoje
acordei na hora, com a sensação de estar atrasada. De ter esquecido alguma coisa.
O corpo dolorido das dores do mundo. Fiquei deitada um par de minutos, pensando
o que fazer da vida.
No dia
anterior, fui ao velório de mais uma mulher assassinada pelo ex-amor... O
caixão no meio da capela do cemitério de Santo Amaro gritava. Por justiça. Mais
uma. Menos uma.
Anteontem,
no prédio vizinho, aconteceu quase a mesma coisa. Um golpe do destino fez o
agressor errar os 3 tiros. Ele se matou depois.
Eu
chego em casa do cemitério meio encerada. Sem sentir nada. Impermeável. Deito
na cama e fico ali atônita. Decido ir caminhar na Jaqueira. Fui no automático.
Tinha um saxofonista na porta do parque tocando umas músicas... eu caminhei
buscando as melodias, que iam e vinham dependendo da minha localização. Eu não
tinha nenhum trocado pra deixar dentro do case dele.
Na
volta, vejo na geladeira um abacate maduro, já passando do ponto. Corto as
cebolas em pequenos quadradinhos, deixo de molho no limão. Amasso com um garfo
a polpa do abacate. Corto cheiro verde bem miúdo. Constato que está faltando tomate...
rego a massa de abacate com azeite, sal e bastante pimenta do reino. Junto os
demais ingredientes. Olho em volta e vejo a pimenta rosa ali dando sopa...
misturo no guacamole para dar um toque de cor na pasta verde degradé.
Cortei
umas fatias de pão, arrumei tudo na mesa. E a fome passou antes mesmo que eu
sentasse.
Estava
exausta.
Uma dor
no corpo chamava a alma. Uma covardia por dentro clamava por respeito. A minha
garganta dolorida de tanto prender o grito.
Me
abandonei na cama. Não eram nem sete da noite. Por via das dúvidas, coloquei o
termômetro e a temperatura era 36,2°.
Tudo
bem, eu pensei.
Deixei
a alma sangrar. Fiquei sentindo a dor da morte destas mulheres que eu nem
conheci.
Acordei
hoje ressacada.
Faltava
ovo, queijo, leite, fruta. Saí relutante da cama, fui ao supermercado. O leite
mais de R$6,00. Melhor comprar suco de uva.
Eu
ainda arrastava o lençol.
Cheguei
no caixa, conversei um pouco com a operadora, digitei a senha e nem olhei o
valor. Guardei a nota. Quando arrumei todas as sacolas nas mãos, tendo o
cuidado de deixar mais livre a sacola da doação que iria fazer na porta do
supermercado, lembrei do café.
- Agora
já foi.
Entreguei
dois pacotes de biscoito waffle de chocolate pra Tayane, que fica sempre ali
com seu filho, pedindo ajuda. Nem sempre eu atendo aos pedidos dela, e quando o
faço, compro coisas mais básicas como cuscuz, arroz, macarrão...
Hoje decidi
comprar pro pequeno, que não chega a ter 6 anos. Quando entreguei, ele pediu
pra comer e, me afastando, ouvi da mãe:
- esse
é tão bom que eu vou vender.
E o
menino:
- mas
mãe, estou com fome.
E a
mãe:
-
Grande coisa... eu também.
...
Meu
coração já vinha apertado. Já vinha sem bater.
Foi ali
que me acabei de vez.
Em
casa, tirei o guacamole da geladeira, e joguei no lixo.
Tinha
apodrecido.
Germana Accioly é escritora e jornalista. Escreve no blog Perder de Vista