por Taciana Oliveira__
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Fotografia: Toa Heftiba |
Estive naquele
mundo.
No escalavrado do
dia a dia
olhos
cor-de-andaime
balançando na
abrasiva tempestade
durante duras
lições.
Naquele mundo que
girava
com suas afiadas
hélices de avião
eu ia e vinha,
nascia e morria,
meus pedaços
estrebuchados
espalhados como
estrelas
por todo o céu,
refletiam num
espelho troll
as feras,
labaredas e mandingas
de intragáveis
quebra-cabeças
entramados num
transe fantasmagórico
para esmurrar o
mundo
e definitivamente
lá no fundo -
preparar meu
anonimato.
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Fotografia: Annie Spratt |
Através dos seus dedos descubro o modo como balança
os cabelos e inicia o penteado.
E vou começar a escrever com os olhos postos nos seus. Mãos no bolso, palmas suando,
todos os dentes rangendo, o estalado da língua quando perceber uma nuvem escura
atravessando o céu.
Não lembro de quando você friccionava as gazes sobre
meu joelho ferido.
Não lembro de quando você cortava a fatia de pão com as pontas dos dedos
mergulhadas no leite morno.
Não lembro de quando você empurrava a bicicleta contra o vento hostil que soprava na
orla da praia.
Mas tudo isso você fez aqui.
Aprendi um ritmo novo, uma música nova. Eu comparo isso a um cavalo correndo
louco pelo campo, a um pneu riscando com força o asfalto escuro escorregadio e a um
asteróide imenso desgovernado vindo em
direção à terra.
Eu apenas me visto diante de você todos os dias. Você apenas se despe diante de mim
todos os dias.
Há vestígios nas alças das xícaras de café de que você sentou e conversou comigo a
noite inteira e me interrogou bastante, e em cada pergunta pus no rodapé das páginas do
livro seu nome escrito com uma
interrogação e um pequeno deserto desenhado ao lado.
Você-acabou-de-colocar-a-mão-no-meu-ombro é a palavra mais bonita que me ocorreu
hoje. Eu tenho isso de caminhar dentro de mim por horas. Seja no ônibus, seja no trem.
Geralmente estou esperando você no alto de um prédio e um sereno leve desce sobre
meu rosto. Você chega de fininho, de repente, com um tom diferente de pele, com
tonalidades loucas nos olhos, distribuindo por cada poro do meu corpo a impressão
vívida de que esteve ali. Sim, você esteve.
o endereço para mim mesmo em letras garrafais em estilo semelhante aos primeiros
minutos em que você não diz nenhuma palavra.
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Fotografia: David Ragusa |
Que
se ame com os olhos
e
que se cate cada milímetro da pessoa amada
caído
pelo chão da sala.
Toda
a pele, os cabelos, as lágrimas, os gritos
da
minha amada estão guardados.
Por
onde minha amada passou,
toda
a geografia imapeável de seus passos,
eu
amei e sonhei.
Até
mesmo quando ela fechou os olhos,
eu
estive lá
abraçado
àquela escuridão, tremendo.
Eu,
no mundo inteiro, sou o que mais possuo coisas da minha amada.
Nisso
não hesito, nisso sou o melhor.
Suas
cartas, marcadores de páginas,
chaveiros
astrológicos, baralhos de tarot
e
o último pedaço de maçã mordido destacando os caninos,
enquanto
segurava a tampa da panela prestes a pegar pressão.
Também
tenho seu cansaço, o modo como troca de roupa,
como
folheia as páginas até encontrar:
“to the centre of the city
where all roads meet, waiting for you" ou
"La
poesía entra en el sueño
como
un buzo en un lago."
Além
da maneira como seus lábios se tocam
ao
cantar certas canções e de repente param:
-
lançando inúmeras ruminações políticas
sobre
o atual estado das coisas.
Está
tudo catalogado.
Um
a um, dei nome aos seus fantasmas.
Um
a um, enumerei suas personalidades.
Um
a um, me mantive atento
a
cada vez em que os limites
entre
corpo e alma
foram
extrapolados num solipsismo mágico,
e
nas histórias de todas as suas nacionalidades
em
muitos países em que brilhou
-perigosamente
-
indicando
alguma saída.
Nada
é fácil nesta vida, nada é.
Amar
a minha amada
exige
total dedicação.
No
final - valeu a pena.
Todos
os dias, antes de dormir,
a
realidade recomeça
bem
diante dos meus olhos:
quando
ela despida
se
torna um imenso meteoro
e,
contra o bolor cotidiano,
se
choca
causando um cataclismo mundial e silencioso
no meu coração.
Kleber Lima. Bibliotecário. Teresina (PI). 1984. Publicou "Poemas I" pela Ed. Penalux, em 2016.