por Taciana Oliveira___
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Fotografia: Distância/ Movimentos de Dança, por Vagner Gonzaga |
é preciso trocar os pés pelas mãos
pelo menos duas vezes por semana
foi a recomendação do doutor
Honório Abílio da Nobrega da Fonseca da Silva do Carmo
famoso médico fictício
em entrevista ao jornal matinal:
- é importante para a boa circulação sanguínea
a troca regular de tais extremidades
além da possibilidade de novas atividades físicas
e uma melhor absorção de vitamina D,
disse o especialista
fiz minha primeira troca no posto de saúde mais próximo
mesmo com pouca adesão da população da capital
o estranhamento não foi só meu
me chamaram de jeca, até de comunista
sou fraco para louvores dominicais
a sensação do polegar opositor
por sob as batatas da perna
foi de uma abstração profunda na rotina do corpo
estranho medir o mundo com mindinho:
estou a um palmo de pé
ou a dois pés de mão?
resolver novelos
reatar engodos
lamber o molho no dedão
calçar cafuné foi bom
escrevi minhas melhores notas de rodapé
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Fotografia: Contragolpe/Movimentos de Dança, por Vagner Gonzaga |
é
impossível mover montanhas
deus
esteve mentindo
já há
alguns anos
dizem
milênios
tuas
dobras são duras
tuas
ilhas imóveis
teu
arquipélago fincado
por
âncoras excessivamente humanas
todos os
mistérios da tua natureza
são
preciosos
o segredo
da lua
que
inunda teu vale
teus
vulcões de leite
tua mata
furta cor rubra
desejos
são vermelhos
inerte
e ainda
assim te amo
e navego
a ti
sempre
após o dilúvio
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Esquiva/Movimentos de Dança, por Vagner Gonzaga |
há de
se cuidar do medo
sempre
antes de passar café
às
primeiras horas
quando
a mira ainda turva
e é impossível
ver pecado
este
medo que muta
que
esquinas e portas
e que
também passados
e
getsêmanis predestinados
o medo
que não domesticado
mas que
preso, letárgico
cresce
nas celas
rói os
vértices
há de
se deixar o medo voar também
e
compor com ele canções vespertinas
na
manhã seguinte
Vagner Gonzaga é designer por profissão e poeta enquanto amador. Busca o lugar de sua poesia entre as palavras, formas e imagens, sempre em contato com a superfície, o laço que temos com nossos abismos e o abismo do outro.
Taciana
Oliveira é mãe de JP, comunicóloga,
cineasta, torcedora do Sport Club do Recife, apaixonada por fotografia, café,
cinema, música e literatura. Coleciona memórias e afetos. Acredita no poder do abraço.
Canta pra quem quiser ouvir: Ter bondade é ter coragem.