por Manoel Tavares Rodrigues-Leal__
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Fotografia (detalhe) do espólio de M. T. R-Leal |
Eduardo Lourenço in memoriam
O teu rosto era mais antigo do que todos os navios
No gesto branco das tuas mãos de pedra
Ondas erguiam seu quebrar de pulso
Em ti eu celebrei minha união com a terra
(Sophia de Mello Breyner Andresen – poema “Eurydice” — em Dual, 1972)
*
I
Vi-te ontem. Hoje, há dez anos, vinte talvez.
Não sei, ignoro o rumor da memória, não, tenho medo e sede.
E Paris, 1975? O beijo dado à Ana, na gare, antes da partida…
O prostíbulo da viagem… não sei, mexia em teu olhar verde
metálico onde vivem agora, esgotadas, morte e vida
secretas povoadas mansas em vez
do Tejo, desta cidade densa aonde acordo
onde meço felicidade onde meramente o corpo resvala o mar recordo.
Lx. 14/7/82
II
Atolado no amor. Como se persegue
a onda de mar, espúria onda?
Assim se sonda
a superfície do ser, larvar…
E é escasso e inimigo o instante,
suspende-se, somente o amor é bastante…
Lx. 14/7/82
III
Nem nada que me assiste,
venta doçura: só a louca praia deserta
se abre aos interstícios de cio.
Respigo os livros, idos. E o rio
que rumoreja, a sombra lesta,
o retorno do corpo usado. E, triste,
me consumo em metal, e triste quem me assiste?
Lx. 15/7/82
IV
Assim achei o alheio e o perdi:
interstícios de sol afundam a superfície densa
de flores femininas. Coincidentes.
O continente do teu corpo ensina-me a imensa
precária sabedoria humana: rumor de dentes
e cio, planície do que meramente aprendi.
Lx. 15/7/82
V
Já errada e errante a nau de ternura…
já brinco com os brinquedos do passado.
O que sepulta a verdade
da palavra, é o azul branco do teu olhar.
Oscila o mar náufrago onde sussurra
a brancura da cidade.
Onde, amor, é tudo alado.
E tudo se alegra. Se espelha ou entristece no fluir da memória da realidade.
Lx. 16/7/82
“E Paris, 1975? O beijo dado à Ana, na gare, antes da partida… / O prostíbulo da viagem…” — Manoel Leal e António Matos Guerra [este, segundo João Trigueiros, amigo comum]; Versailles, Paris — finais de 60 ou princípios de 70.
Blogue de João Trigueiros sobre Manoel T. R.-Leal:
https://artesletrasebaionetas.blogspot.com/2018/10/poeta-manuel-tavares-rodrigues-leal.html
Poemas do mesmo caderno (Apontamentos Poéticos) na revista Caliban (o liso poema de água…):
https://revistacaliban.net/o-liso-poema-de-%C3%A1gua-998cd50f7dd1
“Poemas de uma inegável qualidade poética” (Eduardo Lourenço após a leitura de alguns manuscritos de M. T. R.-Leal)
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*Cinco poemas coligidos do caderno Apontamentos Poéticos (1982) por Luís de Barreiros Tavares
Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941-2016) foi aluno das Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra, frequentando até ao 5.º e último ano, mas não concluindo. Em jovem conviveu com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando com ele “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e princípios de 70”. Nesses anos conviveu também com Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. “A minha chefe deixava-me sair mais cedo para acabar o meu primeiro livro”, A Duração da Eternidade (2007). Publicou cinco livros de poesia de edição de autor. As suas últimas semanas de vida foram terrivelmente trágicas. Caído no quarto, morrendo absolutamente só no Natal e passagem do Ano 2015-2016.