por Taciana Oliveira__
Entre luz e silêncio: a poesia que resiste em A duração da sombra, de Fernanda Nali
O novo livro da escritora capixaba Fernanda Nali, A duração da sombra, marca sua estreia no gênero poesia com uma obra que é, ao mesmo tempo, delicada e intensa, feita de silêncios que ecoam e de imagens que se insinuam entre luzes e sombras. Publicado pela editora FiNA, da própria autora, o volume é um convite à escuta atenta e ao acolhimento.
A começar pelo projeto gráfico, assinado por Victória Pianca e Werllen Castro, A duração da sombra já se anuncia como uma experiência sensorial: o título em relevo só se revela plenamente quando exposto à luz ou ao tato, como um sussurro visual que prepara o leitor para o movimento poético que virá — aquele que caminha entre o que se vê e o que se sente. A metáfora da sombra, que nomeia a obra, torna-se chave de leitura e atravessa os poemas como matéria viva e metafísica.
Dividido em quatro seções, o livro costura imagens do corpo, do território e da linguagem em uma escrita que, mesmo profundamente íntima, abre espaço para questões coletivas e sociais. A poeta fala do corpo-mulher, do erotismo e do afeto, mas também da cidade, da natureza e da desigualdade. Os poemas são acompanhados por obras visuais de artistas como Rubem Grilo, Marcia Gadioli, Leonardo Merçon e Tom Boechat — parcerias que expandem a leitura para o campo do visual e do sensorial, sem perder o foco da palavra.
Na orelha do livro, o professor e poeta Wilberth Salgueiro observa que os versos de Nali lembram “o conhecido jogo de pique-esconde: algo se ocultou, e cabe ao leitor descobrir o que se encobriu.” Esse jogo é também um gesto político: esconder é uma forma de resistir, de deixar pistas, de criar camadas. A elipse, figura recorrente no livro, age como espaço de respiro e de provocação — o que não se diz pulsa com a mesma força do que se revela. Salgueiro aponta ainda a presença de uma escuta poética rara, capaz de transformar a ausência em presença: “a ave que você / na árvore não vê: / _ouve”. Aqui, a linguagem toca o sensível e o sonoro, e faz do leitor um partícipe ativo, “o convidado a ver e ouvir o que (N)ali há”. É nessa ambiguidade — entre ver e ouvir, entre o corpo presente e o que dele se ausenta — que a poesia de Fernanda constrói sua densidade.
Ao longo das 96 páginas, há uma tensão constante entre superfície e profundidade. Como escreve a autora: “quem depressa quis a superfície / tanto quanto o oceano fundo”. É nesse mergulho poético que se revela um mundo de fragmentos, metáforas sutis e lampejos de crítica social — como no verso contundente: “terra quando renda / ao dono / tudo / drena”.
Mais do que uma reunião de poemas, A duração da sombra é uma obra de arte total — costurada com cuidado, imagem e palavra —, que exige do leitor não somente leitura, mas envolvimento. Em tempos de ruído excessivo e velocidade, Fernanda Nali nos convida ao gesto oposto: à escuta, à atenção, ao jogo com a sombra. Como bem encerra Wilberth Salgueiro, “que dure e brilhe a sua Sombra!”
Três poemas sem título da seção “À sombra da palavra”
Se isso de dizer prolonga a véspera
em ruminância tal bovina e áspera,
e a palavra certa na hora exata
também acena como quem deserta
Mais vale o desespero, não a espera
seu golpe vivo de lâmina míope
que o alvo guarda como sequela:
na sua forma é que se revela
Uma dimensão ímpar do passado
que de outro modo ficaria oculta
a aprendizagem do poema captura
na falha: molda um lugar de pergunta,
onde os mortos recobram a sua voz,
e pela sua mão falam conosco.
Disponho palavras surgidas ao acaso
logradas da tradição, recaídas
magicamente sobre mim,
como disponho objetos na mesa
e os enquadro na lente fotográfica.
No arco das horas em movimento
também me registro na sua largura.
Ocupo a superfície de contato e não
há mistério: peso, truque, milagre.
[cai o pano sobre narciso]
Apenas tumultuosa solidão
transborda — aberta, direta, ominosa
quando se acorda do pesadelo.
Para ser o poema
rastro de uma presença
menos minha, mais do outro.
Da minúscula criatura retrátil
quando na areia se aterra.
Partícula que atualiza num átimo
uma ausência na órbita do átomo.
Pausa mínima fora do compasso.
Mímica que antecede o abraço.
Intervalo do que chega quase
— sendo apenas porque provável.
O livro está disponível pelo site da escritora: https://www.fernandanali.com.br
Editora: FiNA (96 págs. R$ 70,0)
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Fernanda Nali nasceu em Vitória, Espírito Santo, em 1987. Estudou literatura e música. Publicou o livro “Território inominado” (Cousa, 2019, contemplado no Prêmio de Obras Literárias da Secretaria de Cultura do Estado do Espírito Santo, na Categoria Estreante). Seus poemas foram publicados em revistas dedicadas à literatura, tais como "Rascunho", "Imã", "Mirada", entre outros. “A duração da sombra” é sua estreia na poesia.
Ficha técnica do projeto
Edição: Fernanda Nali e Matheus Araujo Tomaz
Projeto gráfico: Victoria Pianca
Capa e diagramação: Werllen Castro
Revisão: da autora
Texto da orelha: Wilberth Salgueiro
Fotografia original da capa: Inge Poelman
Fotografia da autora: Mariana Garcia
Imagens de Marcia Gadioli (p. 10–11), Leonardo Merçon (p. 34–35),
Tom Boechat (p. 46–47 / 68–69) e Rubem Grilo (p. 72–73).
Designer: Isabela Bimbatto
FiNA produtora
Rua José Luis Barbosa, 25, República, Vitória–ES
finaprodutora@gmail.com
Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo” Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.