O Indizível: um ensaio sobre o fazer literário | Ariel Montes Lima

 por Ariel Montes Lima__


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1.INTRODUÇÃO 

O que há para ser dito, verdadeiramente, não se pode dizer. Com essa sentença começo minha reflexão, menos formal do que normalmente seria, mas sem perder a particularidade do gênero textual. Difícil, pois, é delimitar o que, exatamente, desejo tratar. Não porque, efetivamente, haja tantas possibilidades distintas de recorte -embora haja-, mas porque, a um só tempo, o tema é externo à língua. Com efeito, no presente texto, pretendo analisar o indizível e sua relação com a literatura moderna e contemporânea. O que, pois, é indizível? É paradoxal lidar e, antiteticamente, buscar entrever tal elemento usando de palavras. Justamente por isso, recupero a primeira oração: o que não se pode dizer. 

Com efeito, a literatura nem sempre envereda por caminhos cognoscíveis, abordando e esmiuçando nuances da realidade a partir de prismas pouco explorados. O que se materializa no texto, então, ultrapassa o que foi, literalmente, escrito e se alça para uma realidade abstraída do inefável, inenarrável, indizível... esse “espectro fluído” da humanidade se apresenta em muitos contextos, normalmente aludindo a uma vivência inconsciente. Para tentar lidar com essa problemática, parto de dois eixos com o fim de estabelecer meu referencial: 1) a pesquisa bibliográfica e 2) a experiência pessoal enquanto pessoa escritora. O desafio, portanto, de escrever e abordar essa questão reside em buscar explorar o que, necessariamente, está fora dos domínios da língua.

2.DESENVOLVIMENTO 

O conceito do indizível na literatura tem despertado interesse, sobretudo no contexto da(s) modernidade(s). Sobre esse ponto, é importante, contudo, recuperar que à noção de indizibilidade, precede a percepção da língua e da linguagem como elementos que visam representar a realidade sem, com isso, apresentarem-na com fidedignidade. Sobre isso, Nietzsche (1997) percebe que a constituição da linguagem se dá partir de uma cadeia de relações representacionais já em decadência; 

um exército móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, [...] uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transportadas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canónicas e vinculativas [...] (NIETZSCHE, 1997, p. 221). 

Dessa forma, 

A linguagem passa a ser entendida, assim, como a ferramenta de que nos valemos para atribuir algum significado às coisas ao nosso redor, mas ao mesmo tempo desvela-se a pungente consciência de que há um abismo intransponível entre o mundo que pretendemos nomear/significar e essa ferramenta de que tomamos mão para fazê-lo. (ANDRÉ, 2014, p. 268). 

Em acréscimo ao citado, Lima (2023a) considera a relação entre língua e realidade como um movimento criativo, em que a língua “não representa a realidade, mas cria uma forma autônoma de cognição do mundo, cuja realidade é, em última análise, incomprovável em termos de percepção individual.” (LIMA, 2023, p. 108- grifo da autora). 

Retomando o tema central, é sabido que à literatura moderna e contemporânea, tem interessado, especialmente, temas, experiências ou sentimentos complexos, profundos ou inefáveis; elementos esses dificilmente expressáveis através de uma linguagem convencional. Esse movimento encontrou grandes representantes ao longo dos séculos, responsáveis diretos pelo refinamento das ideias e técnicas empregadas na elaboração do material literário então legado à posteridade. 

Entre alguns dos mais representativos, podemos citar Juan Ramón Jiménez, Rubén Darío, Miguel Unamuno- grandes notáveis pelas experimentações formais, que desafiam. Em especial, o poema Intelijencia, de Jiménez, expressa o sentimento de inquietação do poeta frente à limitação da língua para expressar a realidade do mundo; vide 

¡Intelijencia, dame
el nombre esacto de las cosas!

Que mi palabra sea
la cosa misma,
creada por mi alma nuevamente.

Que por mí vayan todos
los que no las conocen, a las cosas;
que por mí vayan todos
los que ya las olvidan, a las cosas;
que por mí vayan todos
los mismos que las aman, a las cosas...

¡Intelijencia, dame
el nombre esacto,
y tuyo, y suyo, y mío, de las cosas!

(JIMÉNEZ, S.d., S. n.- grifo meu).

Nesse texto, à maneira de Rubén Darío, a ortografia alterada das palavras ressalta a necessidade de uma expressão mais precisa do mundo – algo impossível (segundo o autor) pela língua tradicional. Os escritores modernos e contemporâneos frequentemente se servem dessa ideia, desafiando as limitações da linguagem enquanto procuram capturar o inefável. 

A literatura, pois, não raramente, lida com a complexidade das experiências humanas, incluindo emoções profundas, trauma e dilemas existenciais, cuja vivência transcende o expressável pelas palavras. O escritor, muitas vezes, se vê diante da dualidade da linguagem: essa se apresenta como uma ferramenta poderosa para comunicação, embora possua limitações inerentes, assim como relativa autonomia enquanto signo ideológico (LIMA, 2023b). 

Destarte, a expressão da realidade subjetiva se confronta com a palavra enquanto uma ferramenta intransparente. Isto é: dada a natureza criativa da língua, a mensagem não pode ser, necessariamente, clara quando manifesta pela palavra. Nesse sentido, a literatura, muitas vezes, abraça o indizível, se valendo de metáforas, simbolismo e linguagem figurativa para sugerir significados mais amplos, cuja abordagem pela linguagem tradicional é insuficiente. 

Em outras palavras, por vezes, a mensagem a ser construída não aceita uma formulação clara, sendo exequível somente mediante uma construção complexa. Diante disso, soem ser necessários distintos recursos sistematizados na unidade literária para, ao cabo, despertar (não transmitir) no leitor a percepção evocada na obra. O uso da ambientação para representar a natureza irracional da angústia, cuja vivência não pode ser expressa mediante o emprego linguístico tradicional é uma das formas mais substanciais de se trabalhar com o inexpressável. 

Vivências como o traumático, o angustiante, o doloroso, uma vez alocadas em uma instância inconsciente, estão, por isso, apartadas do território linguístico como o entendemos (FREUD, 1976;1996). O emprego do espaço para produzir, no leitor, o sentimento de asfixia e inquietação encontram um ponto culminante no romance Nada, de Laforet (2003). Laforet estabelece, ante os olhos do leitor, um paradoxo entre o interior da casa da rua Aribau em oposição evidente ao externo da cidade de Barcelona. O primeiro ambiente descrito a partir de sensações visuais, olfativas e auditivas que enfatizam a escuridão, a sujeira, o odor, a desorganização e o aspecto de envelhecimento e inutilidade dos objetos [...]. 

Em contrapartida, “os ambientes externos da cidade de Barcelona, apesar da destruição ocasionada pela Guerra Civil aparecem, na maioria das vezes, por meio de sensações positivas de luminosidade, cor, brilho, cheiros e sabores agradáveis.” (ANDRÉ; SOUZA, 2007, p. 21). Alguns autores contemporâneos também lançam mão do ambiente enquanto um recurso para aludir à angústia, como é o caso de Ocker (2022a; 2022b). Em Nadiêjda Porokhova, por exemplo, a deterioração do espaço doméstico parece evocar a própria degradação mental da protagonista; vide 

Olhou a casa e sentiu-se perdida. Tudo era um entorpecente olhar sobre o caos. Cadeiras arranhadas iam de canto a canto pela casinha. O chão era batido e sujo, coisa que se não podia evitar, de cinzas e terra. A lareira velha ornava-se de manchas carbonizadas e um cheiro de fumaça asfixiava quem ali estivesse. Nas janelas, cascas de sujeira e imundície se juntavam nos vértices do vidro e miríades de cabelos aglutinavam-se como aranhas sob os pés de Nádia. (OCKER, 2022a, S.n.). 

Situação semelhante é trabalhada no conto O Fungo na Parede (Ocker, 2022b): 

Lentamente, Johan levou o café aos lábios enquanto mirava atônito o gigantesco fungo que crescia em sua parede. Sentiu o estômago se revirar conforme se atentava aos contornos vermiformes e as formações cogumelares que serpenteavam pela parede até atingir o teto. O aroma era desagradável e, uma vez que na minúscula saleta havia apenas uma janela sem comunicação com o exterior, o ar ali se tornava gradativamente mais e mais irrespirável. (OCKER, 2022b, p. 06)

 A estrutura narrativa em fluxo de consciência oferece também um subsídio valioso para o trato com temas, aparentemente, inalcançáveis pela via da palavra. Alguns exemplos interessantes da abordagem influxada da inquietação existencial (algo essencialmente árduo de se depreender) são facilmente encontradas no célebre Livro do Desassossego, de Pessoa (2006). Com efeito, os poemas em prosa de Pessoa identificam-se inequivocamente ao espírito do modernismo. “Desmanchando a superfície dada do real, lançam-se como estilhaços de sentido sem fio narrativo consistente, sem uma noção determinada de tempo e sem fatos propriamente ditos (‘autobiografia sem fatos’ é um de seus subtítulos)” (CORONEL, 2007, p. 46). 

O desmonte da linguagem racional, estruturada e lógica é premente com maestria também na obra As Ondas, de Woolf (2021). 

Essa obra é considerada por muitos de seus estudiosos como a obra mais experimental de Virginia Woolf e até mesmo como sendo sua obra-prima. O estudo do romance é empreendido tendo por ponto de partida a proposição de que Woolf descrevia seus processos depressivos em suas cartas e diários como “ondas”, de forma que tal significante parece remeter a algo que é da ordem do sinistro, do horror. Considera, além disso, que, um pouco antes de seu suicídio, Virginia se refere ao seu processo de escrita associando-o com experiências de êxtase, experiências da e com a linguagem que a protegem contra o real invasor e servem para apaziguar um gozo ilimitado (ALVERNE; FONTENELE, 2017, p. 66). 

Poucas escritoras, contudo, atingem um tal grau de refinamento e percepção quanto a brasileira Clarice Lispector. Obras como A Paixão Segundo G. H. (LISPECTOR, 1996) e Água Viva (LISPECTOR, 1988), por exemplo, exploram com extremo apuro a limitação da palavra para a representação da complexidade subjetiva. A autora, dessarte, 

[...] atua situando tal palavra em constante luta com o indizível, captando talvez pelo pincel as entrelinhas de seu texto, cotejando a questão do impronunciável ao utilizar significantes vizinhos, tais como indizível, inefável, inexprimível, impalpável, insondado, volátil..., marcando a relação de oposição entre a escrita e aquilo que ao mesmo tempo a anima e norteia (HOMEM, 2011, p. 19). 

À exemplo da autora citada, a literatura moderna e contemporânea frequentemente mergulha em instâncias profundas do inconsciente, explorando sonhos, pensamentos e experiências, que normalmente não são abordáveis pela descrição direta. Entre alguns de seus estratos mais recentes, podemos citar o conto Marieta Quer Fugir, de Lobo (2021), em que o fluxo de consciência opera como recurso para explorar os desejos silenciados da protagonista que nomeia o texto, como na passagem: 

E então refogar o arroz, e imagine que linda ficaria numa camisola bem branquinha, de rendas, e que houvesse um homem disposto a despi-la com cuidado e maravilhas? E então bebendo saliva e suor um do outro, os corpos se confundindo num balé que ela nunca dançara, os segredos do gozo todos desvendados, a boca bonita do homem da irmã engolindo toda a sua carne… E já ia mexendo distraída na carne, corada de vergonha e vontade, quando danada a faca meio cega escorrega e abre um corte em seu dedo, o sangue dela se misturado ao do bicho que cortava para alimentar a família [...] (LOBO, 2021, S. n.). 

O uso do silêncio e do não dito na escrita pode, ainda, ser uma estratégia para lidar com o indizível. O que não é dito, dessarte, muitas vezes, tem tanto significado quanto o que é expresso. Assim, essa forma de literatura desafia o leitor a participar da obra, obrigando-o a interagir para a construção ativa do sentido implicitamente declarado. 

Esse movimento oferece enriquecimento da experiência leitora, colocando-o no centro da movimentação textual: um agente direto da vivência no universo particular da pessoa escritora. Por essas razões, traçar um rumo para onde nos leva o indizível é uma tarefa improfícua. Esse é, essencialmente, impreciso e ambíguo, sendo, ao mesmo tempo, uma coisa e seu oposto. Por isso, os caminhos e descaminhos do que não pode ser expresso estão mais bem definidos pelo curso já percorrido do que como uma previsão enunciável. 

3.CONCLUSÃO 

A título de conclusão, apresento algumas considerações a respeito do que pretendi trabalhar neste ensaio. Caracterizando a pesquisa como uma “obra inacabada”, contudo, saliento também a impossibilidade de se oferecer um conjunto fechado de conclusões claras dentro de um terreno tão amplo como o que aqui foi trabalhado. Com efeito, antes de uma resposta, gostaria de retomar a primeira questão aqui trabalhada: como tratar do que é impossível de se elaborar pela língua usando a língua? 

É provável que o desenrolar das considerações aqui presentes evidencie que a língua e a linguagem atuam de modo tangencial, mais com vistas a despertar um sentimento do que a representar uma realidade. Desse modo, a literatura moderna e contemporânea -enquanto uma poética- busca se aproximar de sua depreensão por meio de aproximações expressas, geralmente, por meio de construções complexas: de acordo com a própria complexidade do tema. 

O indizível, dessarte, evidencia a condição igualmente ambígua e complexa do próprio sujeito humano, incapaz de desvencilhar-se de seu ser e exprimir o que lhe escapa às palavras. 

REFERÊNCIAS 

ALVERNE, Larissa Arruda Aguiar; FONTENELE, Laéria Beserra. Estudos psicanalíticos sobre a literatura de Virginia Woolf: alguns apontamentos para futuras pesquisas sobre sua obra. aSEPHallus, p. 60-75, 2017. 

ANDRÉ, Rhina Landos Martínez; SOUZA, Ana Paula de. Um Olhar Ao Espaço Doméstico Da Sociedade Espanhola De Pós-Guerra. Polifonia, v. 13, n. 14, 2007.

ANDRÉ, Willian. A impossibilidade de se dizer o indizível: reflexões sobre o duplo na novela" O unicórnio", de Hilda Hilst. Estudos de literatura brasileira contemporânea, p. 263-276, 2014. 

CORONEL, Luciana Paiva. A modernidade da prosa poética do Livro do desassossego, de Fernando Pessoa. 2007. Disponível em: A modernidade da prosa poética do Livro do desassossego, de Fernando Pessoa (furg.br). Acesso: 22 jan. 2024. 

FREUD, Sigmund. Uma nota sobre o ‘Bloco Mágico’. In:____. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 19. Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Originalmente publicado em 1925[1924]). 

FREUD, Sigmund. O inconsciente. In_____: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Vol. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Trabalho original publicado em 1915c). 

HOMEM, Maria Lucia. No limiar do silêncio e da letra: traços da autoria em Clarice Lispector. Boitempo Editorial, 2015. 

JIMÉNEZ, Juan Ramón. Intelijencia. Poetas Andaluces. Disponível em: Poemas de Juan Ramón Jiménez - INTELIJENCIA - poema de Juan Ramón Jiménez titulado INTELIJENCIA (poetasandaluces.com). Acesso: 22 jan. 2024. 

LAFORET, Carmen. Nada. Barcelona: Destino, 2003. LIMA, Ariel Montes. Mais além da relatividade linguística: a representação como (re) imaginação da realidade. Revista Philologus, v. 29, n. 87, p. 100-9, 2023a. 

LIMA, Ariel Montes. O Sentido e Sua Natureza: Uma Busca Por Elos e Palavras. Revista História em Curso, v. 5, n. 8., p. 169-193, 2023b. 

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo GH. Editorial Universidad de Costa Rica, 1996. 

LISPECTOR, Clarice. Água Viva. São Paulo: Rocco, 1988. LOBO, Cecília. Marieta Quer Fugir. Revista Cassandra. 2021. Disponível em: https://revistacassandra.com.br/marieta-quer-fugir-cec%C3%ADlia-lobo-4df1b81360b?source=search_post---------0----------------------------. Acesso: 21 jan. 2024. 

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Acerca da verdade e da mentira no sentido extramoral. In: Obras escolhidas de Friedrich Nietzsche. Vol. I. Tradução de Helga Hoock Quadrado. Lisboa: Relógio de Água. 1997. 

OCKER, Ariel Von. Nadiêjda Porokhova. Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 37, 2022a. ISSN-e: 1806-2555. 

OCKER, Ariel Von. O Fungo Na Parede. Revista Ikebana, v. 1, n. 01, 2022b. 

PESSOA, Fernando. Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Editora Companhia das Letras, 2006. 

WOOLF, Virginia. As ondas. Autêntica Editora, 2021.




Ariel Montes Lima
é pessoa non-binary, psicanalista e professora. Autora dos livros Poemas de Ariel (TAUP, 2022), Sínteses: Entre o Poético e o Filosófico (Worges Ed., 2022), Ensaios Sobre o Relativismo Linguístico (Arche, 2022), Poemas da Arcádia (Caravana, 2023), Silêncios: Duros Silêncios (Worges, 2024) e O Inominado ou A Descoberta do Mundo (TAUP, 2024).